
Diariamente, recebo em meu consultório pessoas com histórias de dores persistentes, com diagnósticos de hérnia de disco, protusões na coluna, tendinopatias, artroses diversas, entre outras alterações estruturais. E estes diagnósticos são sustentados por exames de imagem, como ressonância magnética e tomografias computadorizadas, que comprovam tais alterações. Para muitos profissionais estes achados são suficientes para justificar a dor do paciente e estes, por sua vez, aceitam este diagnóstico como o real motivo de suas dores. Mas, será que estas alterações estruturais que aparecem nas imagens tem realmente relação com as queixas de dor?
Na maioria das vezes, não. Imagens são apenas fotografias das estruturas corporais, que isoladamente, não dizem muita coisa. É importante estar atento a outros fatores associados para se chegar a um diagnóstico mais preciso.
ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS SÃO NORMAIS NA MAIORIA DAS PESSOAS, SEM CAUSAR DOR
Se fizermos um exame de imagem em um grupo de pessoas que não sente nenhum tipo de dor, é comum, encontrarmos diversas alterações. Podemos dizer que muitas destas variações anatômicas e dos tecidos estão associadas ao processo degenerativo normal do corpo, é como se fossem rugas internas. Claro que seu estilo de vida e como cuidou do seu corpo ao longo do tempo são fatores que podem influenciar neste desgaste corporal. Por exemplo: se você foi um atleta de alto rendimento, pode ser que seu corpo tenha mais desgastes.
TENHO DOR PERSISTENTE E MEU EXAME É NORMAL
Por outro lado, existem pessoas que sentem dores constantes, extremamente desconfortáveis e seus exames de imagem não acusam nada. Será que o exame está errado? Provavelmente, não. Como estamos enfatizando neste artigo, nem todas as dores estão relacionadas a uma alteração estrutural. Atualmente, a ciência sugere com alguma segurança que o estilo de vida contemporâneo influencia de maneira complexa e não linear a origem dos problemas crônicos mais comuns. É importante ressaltar que, às vezes, a dor estará relacionada a alguma lesão nos tecidos, mas isso acontece na minoria dos casos de dor crônica. Por isso a importância de se realizar uma avaliação clínica criteriosa.
ENTÃO, COMO SABER DE ONDE VEM MINHA DOR?
Consultar um profissional de saúde especializado em dor para realização de uma avaliação clínica criteriosa é o primeiro passo para desvendar os mistérios da dor. Considerando que a dor é uma experiência subjetiva, é fundamental que o profissional escute o paciente, sua história, compreenda seu estilo de vida e todos os aspectos psicossociais que podem estar envolvidos. Além disso, avaliar as funções de movimento e a autonomia para as tarefas diárias também se faz necessário. Não há uma resposta única, para cada tipo de dor, cada detalhe precisa ser considerado dentro de um contexto multifatorial.
Sendo assim, fique atento! Seu estilo de vida pode estar te deixando mais vulnerável para o surgimento e/ou perpetuação de dores no corpo do que as degenerações estruturais encontradas nos exames de imagem. Estes, quase nunca apontam claramente a causa da dor. Na prática clínica, torna-se claro que estes laudos normalmente levam o paciente em direção a diagnósticos equivocados e a tratamentos que não são eficazes. Por este motivo, é importante se desprender dos laudos apresentados nos exames de imagem e explorar os reais elementos que vem trazendo dor e desconforto para o paciente. Uma modelo de tratamento biopsicossocial que considere a percepção do indivíduo sobre sua dor e sobre seu contexto de vida e a influência de fatores físicos, emocionais, psicológicos, cognitivos e sociais é o que trará maior eficácia no manejo da dor.