Medo de movimento – Como vencer esta barreira no manejo da dor?

Se você está deixando de fazer alguma atividade por causa de dor, cuidado! Você pode estar entrando numa crescente evitação de movimento, incapacidade física e até mais dor.

 Primeiramente, quero ressaltar que estamos falando de casos de dor crônica, onde já não se tem, exatamente, um dano nos tecidos mas, ainda assim, a pessoa tem uma percepção de dor. Isso é possível, pois nosso cérebro faz milhares de predições e simulações do que vai acontecer frente a uma situação, se antecipando ao acontecimento da situação de fato. Por exemplo, imagine a sua sobremesa favorita. Pode ser um sorvete, uma torta de chocolate, ou qualquer outra da sua preferência. Talvez, só de pensar nesta sobremesa sua boca pode ter aumentado a salivação, ou você sentiu um aperto no estômago, ou até mesmo seu coração começou a bater mais rápido. Isso acontece porque seu cérebro fez associações com experiências passadas onde você degustou esta sobremesa e assim ele se preparou para receber este “estímulo”, provocando algumas alterações no seu organismo. Na dor crônica também é assim que acontece. Sendo que, muitas vezes, estas predições e simulações acontecem de forma incorreta. Ou seja, seu cérebro interpreta uma situação como ameaçadora, mesmo que não seja de fato e assim, antes mesmo que a situação aconteça, este se antecipa enviado um sinal de dor para o corpo. Não é tão simples compreender todo este fenômeno. O que é importante ficar claro é que a dor é uma construção do cérebro, de acordo com suas interpretações diante do meio interno e externo.

 Carregar compras, pegar seu filho no colo, pegar um objeto pesado no chão, correr, e outras diversas situações não deveriam ser uma ameaça para seu corpo mas, seu cérebro pode estar cometendo este tal erro de interpretação, conforme comentamos acima, e desta forma, produz uma resposta condicionada de medo e evitação do movimento (entre outras respostas). Por exemplo: toda vez que você pensa em pegar um objeto pesado no chão seu organismo sofre algumas alterações fisiológicas internas e seu cérebro faz uma predição equivocada das consequências que tal movimento pode provocar; e acreditando ser uma ameaça, você sente medo e toma a decisão de evitar tal movimento para se proteger. 

O grande perigo deste comportamento de medo e evitação de movimento é que, diante destas circunstâncias, o sistema musculoesquelético e cardiovascular é cada vez menos utilizado. Isso vai gerando uma incapacidade física cada vez maior e esta por sua vez aumenta ainda mais a percepção de dor. É um ciclo vicioso que se retroalimenta, impedindo a recuperação da dor e diminuindo a qualidade de vida. 

Logo, fique atento ao surgimento destes comportamentos e busque estratégias de enfrentamento ativo da dor, como a exposição gradual aos movimentos considerados ameaçadores. 

A exposição gradual é uma das principais estratégias para lidar com o medo e a evitação, pois o cliente tende a corrigir suas expectativas de dor quando tem a oportunidade de repetir a mesma atividade que provocou a dor. Para isso é importante ter a orientação de um profissional de educação física ou fisioterapeuta, especializado no tratamento da dor. 

Além disso, a educação em dor, o Mindfulness, a flexibilidade psicológica e a aceitação da realidade também são elementos que melhoram a adaptação do cliente à condição da dor, bem como seu enfrentamento.

Sendo assim, evite ficar parado e/ou limitar suas atividades do dia-a-dia devido a uma condição de dor. Se você está com dificuldade para realizar algum movimento, procure ajuda. Nosso corpo foi feito para se movimentar e a variabilidade de movimento será fundamental para sua autonomia e qualidade de vida!